A gaiola da liberdade

Até hoje ainda não conheci nada que seja tão mal interpretado quanto a caixa de transporte. Ela frequentemente é considerada uma gaiola, jaula, crueldade, violação dos direitos dos animais, tortura… Antigamente, quando pessoas que passavam por mim faziam tais comentários, eu ainda me dispunha a explicar qual a sua utilidade, mas quase nunca consegui. Atualmente, diante de tal situação e dependendo do meu humor, apenas respiro fundo e fico em silêncio, ou respondo que faço parte de uma seita secreta torturadora de animais. Com a segunda conduta o interlocutor ao menos vai embora mais rapidamente.

Quando sugiro a utilização da caixa de transporte durante as aulas, invariavelmente, as pessoas me olham com cara de espanto e perguntam se o que estou propondo é verdade.   Em 2009 no adestramento da acelerada Boxer Lilla, não foi diferente. Daniel Germano e sua noiva Patrícia ficaram absolutamente resistentes:

– A Lila presa em uma gaiola?! Nem pensar! Ela é muito agitada para ficar enjaulada em um local tão apertado! Ficaria louca lá dentro!

Apesar de toda a resistência ao sistema da caixa, as outras orientações foram bem recebidas e eles decidiram fazer um trabalho mais extenso e ainda participavam das atividades extras. Dessa forma pouco a pouco foram repensando a questão. Semanas depois sem que eu tivesse voltado a tocar no assunto, me surpreendi ao encontrar no meio da sala uma enorme caixa de transporte. Imaginei a princípio se tratar de alguma brincadeira, mas de fato ela estava sendo usada e Daniel cheio de satisfação comentou:

– Desde que comecei a usá-la não limpei mais um xixi ou cocô fora do lugar! Nunca imaginei que o resultado seria tão simples, rápido e agradável.

Aquilo soou como música para meus ouvidos e me dei por satisfeito naquele trabalho, mas outras surpresas estavam por vir. No decorrer das outras aulas eles sempre comentavam que haviam levado a Lilla para passear em algum parque e que se animavam a fazer isso pela facilidade de transportá-la no carro. Tempos depois decidiram comprar mais uma caixa, para reduzir o trabalho de subir e descer com o material do apartamento para a garagem. Uma passou a ficar em casa e a outra no veículo.

A facilidade não se restringia apenas ao transporte, mas também a permanência em determinados locais. Daniel e Patrícia começaram a levar a sortuda Lilla para casa de amigos e parentes, pois quando necessário era fácil mantê-la presa sem incomodar as pessoas. Pelo mesmo motivo fizeram até viagens na companhia da cachorra.

Quando não é possível levá-la eles sempre a deixam hospedada conosco o que pra nós é um imenso prazer. É bastante comum os cães chorarem, uivarem ou arranharem as portas quando são retirados da área de lazer e colocados para dormirem em seus canis. Isso de fato não acontece com a Lilla que automaticamente entra em sua caixa de transporte e sabiamente dorme, guardando as energias para serem gastas no dia seguinte durante as atividades e brincadeiras.

Com o passar do tempo não só o relacionamento com a Lila foi se estreitando, mas também o de Daniel e Patrícia que decidiram se casar em 2011. Tive a felicidade de ir ao casamento que foi realizado em uma imponente igreja no bairro de Botafogo, com um salão de festas maravilhosamente decorado. No enorme e apetitoso bolo havia três simpáticos bonecos: dois representavam os noivos e o terceiro, adivinhem quem? A Lila. Fiquei muito feliz quando vi aquilo. Todos sabem que detesto qualquer tipo de humanização de cães e aquele bonequinho canino não tinha nada a ver com isso. Demonstrava sim que a cachorrinha fazia parte realmente da vida dos dois.

Claro que essa relação tão bacana se deve a uma série de fatores e não podemos negar que a influência positiva da caixa de transporte é um deles.

Enfim, a Lila poderia ser uma cachorrinha acostumada apenas a circular dentro de casa e a dar passeios amarrada pelo pescoço, mas bem distante disso ela dispõe de verdadeira liberdade. Passeia por diversos locais totalmente livre e freqüenta outros tantos que vários cães teriam o acesso negado. Até mesmo no hotel leva vantagem nítida. Por tudo isso quando alguém, se referindo a caixa, comenta:

– Que maldade! Isso é uma gaiola de cachorro?

Eu respondo: “É sim. É a gaiola da liberdade!”

Daniel se coloca a disposição de quem quiser tirar dúvidas seu e email: dlgermano@gmail.com e telefone: 8868-2634.

 

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